Os Sonhos e a Pandemia

Os Sonhos renasceram durante a Pandemia do Cornavírus. O que isso quer nos mostrar?

Percebi uma retomada muito grande do tema Sonhos durante este período que estamos atravessando. Cursos, comentários, relatos, compilações e percepções, enfim muito mais interesse por este assunto.

Olhando incialmente para os aspectos mais básicos e simples, o fato de estarmos todos, por conta do isolamento, com menos movimentação física, no ir e vir, menos distraídos com tantos outros assuntos, abre-se espaço para as imagens dos sonhos ganharem mais relevância, afinal o cenário externo tem mudado pouco no dia-a-dia, e a infinidade de cenários internos pode ser notada.

Existe também, acredito eu, o fato de estarmos acordando com mais calma, muitos sem necessidade do despertador (notem DESPERTA A DOR), e isso faz com que as imagens oníricas não se dissipem com o levantar abrupto.

Temos tempo para lembrar dos sonhos, para dedicar-lhes alguma atenção.

Levanto uma hipótese sobre o fato de estarmos mais tempo em família como um fator importante neste despertar de interesse para os sonhos. O relato de um sonho é muito íntimo e traz bastante exposição psíquica, então quando temos pessoas de nossa intimidade para confiar nossos relatos, ainda que sejam meros comentários como “sonhei de novo com minha avó”, talvez essa oportunidade – por incrível que pareça nova em nossos cotidianos – possa recolocar os sonhos na Vida.

A Pandemia trouxe consigo uma possibilidade real de desmoronamento. Escolas pararam, restaurantes e lojas fecharam, até a novela parou. Algo que estava certo e dado se estilhaçou. Isso é muito forte e os impactos são muito profundos na psique humana. Não necessariamente ruins, mas certamente impactantes.

Essa descontinuidade do que era a realidade, essa abertura no que achávamos que era Real, coloca a realidade em questão. De repente os papéis sociais que ocupávamos em diferentes instâncias da Vida ficaram em suspenso. Escola, trabalho, reuniões sociais, projetos, viagens, consumo… tudo pode perder a forma, aquele contorno com o qual estávamos acostumados.

Até o tempo e o espaço perdem a solidez. Já não sabemos ao certo que dia é hoje e domingo a noite não tem mais aquele peso conhecido e compartilhado. A mecanização da vida foi interrompida. A cronologia linear perdeu a marcha. O sentido instituido das “coisas” esfumaçou. O ritmo externo de segunda à sexta desafinou.

Essa quebra e desconfiguração do que chamamos de realidade, abre uma nova perspectiva para os sonhos. Se a realidade não é tão real assim, as imagens oníricas podem se aproximar e se fazer presentes.

Quando não encontramos na vida de vigília, um traçado claro e coletivamente acordado, como o que chamamos de “normalidade”, precisamos evocar os sonhos, nos sonhos as mensagens do que buscamos compreender.

Esta ruptura e especialmente a proximidade com o tema da morte reativaram as velhas perguntas de todos os tempos: quem somos? o que fazemos aqui? qual o sentido da vida? O que é este vírus afinal?

São perguntas cujas respostas não se encontram na rotina mecanizada e adormecida do dia-a-dia, mas sim numa reflexão profunda e aguçada entre o mundo interno e o externo. E os sonhos estão aí, todas as noites, trazendo mensagens, dialogando com a pandemia dentro do cenário particular de cada um. Ouvir os sonhos, trocar mensagens, informações, intuições são práticas ancestrais para compreendermos o que se passa dentro e fora, individual e coletivamente.

Acredito fortemente que olhar para nossos sonhos com honestidade e devoção é uma forma de auto-responsabilização, de centramento e comprometimento com o caminho individual e coletivo.

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